CANNPRISMA quer produzir a «melhor canábis medicinal do mundo»

2022-03-02 10:12:36 By : Mr. JIANWEI ZHOU

Entre novas plantações de abacate que crescem gota a gota nas margens dos últimos quilómetros da Via do Infante (A22), entre figueiras e o sapal salgado que faz a fronteira raiana com Espanha, surge um ambicioso projeto empresarial que promete colocar o Algarve na lista de clientes das melhores empresas farmacêuticas, fabricantes e distribuidores de canábis medicinal do mundo.

A inauguração da unidade de cultivo e processamento de canábis medicinal em Castro Marim teve lugar ao início da tarde de segunda-feira, dia 20 de setembro, numa propriedade que engloba estufas e instalações, equipamento e mão de obra de ponta.

«Hoje, vejo concretizado um dos meus maiores sonhos. Um objetivo partilhado com toda a minha equipa. Foram quase três anos de trabalho que nos permitiram chegar aqui. O percurso nem sempre tem sido fácil, mas a nossa visão, esforço e empenho têm sido tão grandes que mesmo perante as dificuldades e obstáculos nunca desistimos. Sempre acreditámos um dia chegar aqui. Mesmo sendo para nós uma obra enorme e dificílima de concretizar, podemos dizer que uma parte está feita», disse João Nascimento, jovem CEO da CANNPRISMA.

O objetivo da empresa é «cultivar e processar canábis medicinal de elevada qualidade e que venha a contribuir para melhoria da saúde de muitos pacientes, regendo- se sempre por elevados níveis de segurança e ética empresarial», assegurou o responsável.

Em resumo, a CANNPRISMA está a investir em quatro grandes áreas de negócio, divididas por várias fases de implementação.

A primeira fase é a que está concluída. Diz respeito à unidade de cultivo e processamento de Castro Marim que segue as normas GACP (Good Agricultural and Collection Practices) internacionais.

Está em atividade desde o segundo semestre de 2020, em testes, tendo sido obtida a autorização final a 29 de julho de 2021 por parte do Infarmed – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde para o cultivo, importação e exportação de canábis para fins medicinais.

«Neste momento está a decorrer o processo de ampliação das zonas de cultivo para rentabilizar o investimento já efetuado», acrescentou João Nascimento.

A segunda fase é a construção de uma unidade industrial GMP (Good Manufacturing Practices) para processamento, extração, manufatura e embalamento, em Vila Real de Santo António (VRSA).

Terá 6000 metros quadrados (m2) e incluirá uma área para investigação e desenvolvimento (I&D) e um laboratório de testes.

«Neste momento está na fase final de construção e irá produzir flor seca», disse ainda.

A terceira fase será «a obtenção de óleos, extratos e matérias-primas como e APIs (Active Pharmaceutical Ingredient) para o fornecimento da indústria farmacêutica nessa mesma unidade. A quarta fase está relacionada com a produção de preparados e medicamentos, estando previsto funcionar como prestador de serviços para terceiros, assim como para produzir produtos de marca própria».

Em relação a números, «o nosso projeto de investimento prevê nos próximos cinco anos, cerca de 30 milhões de euros, sendo que até à data já foram investidos 15 milhões divididos em tranches».

De acordo com João Nascimento está prevista a criação de 200 a 300 postos de trabalho (hoje são já cerca de 50), cerca de metade com habilitações ao nível da licenciatura ou superior, em várias áreas do conhecimento, inerentes à produção agrícola, engenharia farmacêutica, biotecnologia, entre outras.

A expetativa de faturação é de 20 milhões de euros com 90 por cento da produção destinada à exportação.

Em 2022, está previsto o cultivo de 12 toneladas de flor de canábis.

«Saliento que este é um negócio que exige um grande investimento em estufas de alta tecnologia, em software e meios de segurança física e humana. Esta área exige grandes custos em mão de obra especializada quer na agricultura, quer na indústria farmacêutica. Neste momento, metade dos nossos colaboradores têm licenciatura ou grau superior. Tratando-se de uma área de negócio nova, quer em Portugal, quer no mundo, também é necessário investir fortemente em I&D para o desenvolvimento de plantas únicas e para a criação de novos produtos para nos diferenciarmos no mercado. E porque queremos ser uma empresa líder e ao mesmo tempo sustentável, podemos referir que toda a água é reaproveitada para regar os jardins na área envolvente das nossas plantinhas. Nas estufas toda a iluminação é LED e vamos instalar painéis solares. Não usamos pesticidas nem inseticidas, mas insetos auxiliares para combater as diferentes pragas».

No futuro, «temos o objetivo de nos tornar uma referência mundial na investigação, desenvolvimento, cultivo, extração e fabricação de canábis medicinal».

João Nascimento fez questão de deixar um «profundo reconhecimento» aos acionistas da empresa.

«São os meus pais, pois desde que apresentei este projeto, ajudaram- me, incentivaram-me e financiaram-me».

O CEO agradeceu ainda ao executivo da Câmara Municipal de Castro Marim.

«Obrigado por terem acreditado em nós. Obrigado por integrarem este desafio que superou partidos, políticas e ideologias. Espero que continuem sempre a apoiar os sonhos dos empresários». «Penso que estão criadas todas as condições para que daqui venha a sair uma das, senão a melhor canábis medicinal para todo o mundo», enalteceu.

Por sua vez, José Apolinário, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, não escondeu a sua satisfação.

«Este é um projeto financiado com fundos europeus, com uma candidatura entregue em 2018, pensado para sete milhões e 100 mil euros de financiamento elegível inicial e dois milhões e 100 mil euros de subvenção».

«Foi um projeto articulado com o IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação. É um projeto que durante a minha presidência procuramos acarinhar pela ambição da equipa e também pela sua importância».

«Muitas vezes falamos que é preciso diversificar a base económica da região e que não podemos apenas viver do turismo. Este cultivo de canábis medicinal é um bom exemplo. Com a legislação de 2018, criaram-se condições para haver maior competitividade neste nicho sempre ligado à indústria farmacêutica e à competitividade de um produto».

Referindo-se a outras estruturas empresariais congéneres que estão na calha, Apolinário sublinhou que «na região temos vantagens competitivas devido às condições climatéricas. Em quatro ou cinco meses temos a flor de canábis pronta para passar à fase de valorização. Muitos investidores olham com interesse porque a grande produção deste produto está na Califórnia, nos EUA. O grande quadro comércio de transformação é feito em Espanha ou na Alemanha».

Para já, a CANNPRISMA «capta emprego qualificado, faz uma gestão da água inteligente e cautelosa». E há ainda outro argumento de peso, segundo o presidente da CCDR Algarve.

«O investimento em inovação e ciência na nossa região é ainda muito baixo. Os dados de 2019 dizem que representam 0,41 por cento do PIB gerado no Algarve. Os objetivos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) dizem que deveria rondar os três por cento. Já não penso nessa ambição, mas pelo menos, devemos querer duplicar esses 0,41».

No uso da palavra, Francisco Amaral, médico e autarca de Castro Marim sublinhou que «desde a primeira hora abracei este projeto. Não sei se sabem, mas o medicamento que mais se consome no mundo são os tranquilizantes. São milhões que todos os dias se consomem no mundo. Medicamentos que conduzem à dependência e que provocam efeitos maléficos a médio e longo prazo incalculáveis». O edil que faz voluntariado semanal na unidade de Faro do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), deixou bem claro que no Serviço de Oncologia, «onde estão pessoas em estado terminal», este tipo de terapia é muito bem-vinda.

«Estes derivados da canábis medicinal são milagres naqueles doentes. E daí a sua importância, ao menos nos seus últimos dias» de vida. Por outro lado, «o concelho de Castro Marim, grande parte, está situado no nordeste algarvio, uma das zonas mais deprimidas da União Europeia e daí a importância de um investimento que gera riqueza e emprego. Não há palavras para agradecer o vosso arrojo, a vossa determinação e a vossa vontade», sublinhou Francisco Amaral.

A inauguração contou com a presença de representantes das várias forças de autoridade (GNR; PSP e PJ), da vice-presidente da Câmara Municipal de Castro Marim Filomena Sintra e ainda de Pedro Valadas Monteiro, diretor regional de Agricultura e Pescas do Algarve.

Nas estufas há um ambiente controlado no que toca à humidade e temperatura a que as plantas estão sujeitas, assim como na limpeza de todas as instalações. As plantas crescem numa maternidade, vão para uma unidade onde passam para o estado vegetativo e depois seguem para floração. Desenvolvem-se ao sabor da luz e dos nutrientes, com cuidados cirúrgicos.

As instalações foram concebidas de raiz para cumprir as boas práticas de fabrico de medicamentos, sempre na perspetiva de reduzir a contaminação. Um protocolo de procedimentos internos garante a limpeza e evita «erros de produção ou contaminações cruzadas».

Uma equipa dedica-se à gestão de qualidade. Todos os equipamentos de produção ou de fornecimento de ar às instalações estão certificados, pois a empresa é obrigada pelo INFARMED a que haja um sistema interno de qualificação de todos os fornecedores, sejam de serviços, de equipamentos ou de materiais e matérias-primas.

Apesar de a inauguração ter sido na segunda-feira, dia 20 de setembro, há todo um trabalho de fundo que soma três anos para criar uma estrutura funcional e preparada para crescer ainda mais.

A empresa quer fornecer países que são muito rigorosos nas análises do produto acabado. A canábis algarvia tem de cumprir com as condições da farmacopeia alemã, uma das mais rigorosas do mundo. Para isso, é feita uma análise físico-química e microbiológica de cada lote de flor de canábis, quer o produto final, quer a pré-produção que é mantida debaixo de olho pelo processo de controlo de qualidade. Se em determinado ponto a flor não estiver dentro dos exigentes parâmetros, o lote é descartado.

A CANNPRISMA – Pharma, Lda, com sede no Sítio da Pinheira, em Castro Marim, é beneficiária de fundos europeus geridos pelo Programa Operacional do Algarve – CRESC ALGARVE 2020, no âmbito da candidatura ALG-02-0853-FEDER- 070627, denominada «Implementação de uma Unidade Industrial de Transformação da planta Cannabis Sativa em produtos com fins medicinais», com um montante global de investimento elegível de 7.197.354,76 euros, comparticipado a 30 por cento pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

O projeto consiste na criação de uma unidade industrial de transformação e processamento da planta, localizada em Vila Real de Santo António (VRSA) com vista à comercialização de flor desidratada e do óleo da flor nos mercados internacionais, prevendo-se a sua conclusão em junho de 2022.